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Bem da Cabeça

Uma estudante de Psicologia a tentar perceber isto tudo

Bem da Cabeça

Uma estudante de Psicologia a tentar perceber isto tudo

Louca

20.07.20

Hoje no trabalho atendi um senhor que falava sozinho. Os meus colegas fizeram-me sinal, como que a dizer-me que não valia a pena esforçar-me para fazer a venda porque estava a atender um louco. Mas vale sempre a pena fazer o esforço para ouvir o outro. Ponho-me no papel das pessoas que são gravemente instáveis e pergunto-me: não quereria ser tratada como pessoa?

Deixo-vos um poema do meu amigo Júlio, de quem sinto muitas saudades, e que me tem feito muita falta nestes dias.

 

Oração

Tenho medo, Senhor
Tenho medo sim senhor
De enlouquecer definitivamente,
De morrer, algum, mas já tive mais,
De perder efectivamente
Os anjos da guarda e os meus pais
Tenho medo de tantas coisas
Que a lista nunca mais acabava
E as palavras valem o que valem
Tal como o sonho e a vida
Por tudo quanto tem valor
Tenho medo.
Da coragem, conheço o amor
E eu sou corajoso
O suficiente, ó Senhor
Para te rogar
Que zeles pela minha fé
Sempre que ela não me acompanhar

Doar vida

15.07.20
A pandemia global que atualmente atravessamos apresenta uma série de desafios pelo impacto inédito que tem na vida das pessoas. Ninguém previa a alteração de rotinas de trabalho, o recolher obrigatório, a escola que voltaria a ser dada pela televisão, as urgências que subitamente se esvaziariam, o uso de máscaras cirúrgicas em público que se tornaria comum.

O choque das pessoas perante um inimigo invisível originou mais do que uma mudança de hábitos, causou um grave distúrbio na saúde mental na população. De acordo com um estudo publicado pela revista científica The Lancet em abril, os britânicos demonstravam uma maior prevalência de sintomas de ansiedade, depressão, stress e preocupação geral com o isolamento social – apreensões estas mais fortes do que a possibilidade de contrair o vírus.

Enquanto meio mundo se fechava em casa, a outra metade via-se obrigada a continuar a deslocar-se ao seu local de trabalho, como é o caso dos profissionais de saúde. Os Hospitais não param por causa da pandemia, trabalham em esforço: todos os dias, para além do vírus, existem doenças para serem tratadas, acidentes para serem socorridos, operações para serem feitas. Todos os dias os hospitais portugueses precisam de, pelo menos, quinhentos litros de sangue para se abastecerem: a cada dois segundos uma pessoa precisa de uma transfusão de sangue. 

Devido à pandemia nos meses de março e abril registou-se uma quebra de quarenta por cento nas dádivas de sangue, o que se traduz numa perda de entre dez a quinze mil dadores. As recolhas em universidades e empresas foram canceladas, as unidades móveis de recolha paradas. O período de verão, por ser o escolhido para férias, é particularmente preocupante porque regista uma quebra generalizada de dadores. 

Estudos demonstram que atos de altruísmo, como doar sangue, reduzem o stress, melhoram o estado emocional, beneficiam a saúde física, eliminam sentimentos negativos, propiciam um sentimento de pertença e reduzem a sensação de isolamento. Pessoas que recuperaram do vírus podem, inclusive, doar plasma que pode ser utilizado por empresas farmacêuticas para desenvolver novos medicamentos de prevenção a este e outros vírus.

Torna-se, portanto, urgente mais do que nunca doar sangue. É um processo indolor que pode salvar vidas e produzir efeitos benéficos na saúde mental de quem doa

11 milhões de médicos

15.07.20

Eu tenho uma teoria de que Portugal é um país de médicos sem canudos. É ver uma pessoa gorda que saltam logo os comentários “mas tens de emagrecer, pela tua saúde!”. Se há preocupação em saber o historial médico da pessoa, a medicação que toma, a alimentação que faz, o exercício que pratica? Nada. Se assim é, a preocupação é mesmo pela saúde da pessoa? Porque a saúde de uma pessoa não se mede apenas pelo aspeto: qualquer profissional de saúde competente sabe disto. A preocupação não é, nem nunca foi, a saúde. Nem existe preocupação. O que existe é uma aversão irracional a corpos que não são magros – se é gordo é fora do padrão, logo não deve existir. Quem vem com historietas de que está com muitas preocupações não passa de um médico de vão de escada.

Plantas

14.07.20

Para se ter uma relação é preciso ter-se tempo e disponibilidade mental. Para que uma relação tenha sucesso é preciso que invistamos nela, que sejamos curiosos, que façamos perguntas e nos interessemos pelo que o outro tem para nos mostrar. Para que uma relação sobreviva é necessário regá-la com consistência, dedicação, carinho, atenção e paciência. Para que uma relação seja saudável, precisamos de cultivar o respeito e a compreensão.
As minhas relações têm o mesmo destino que as minhas plantas. Não as sei tratar. Morrem-me nas mãos. Ou fico sem saber se lhes dou demasiada água ou esqueço-me que elas existem.
Vivo num último andar com plantas artificiais que não precisam de ser regadas nem de fazer a fotossíntese. Coloco-as no topo das prateleiras, onde ninguém as consegue ver ao perto.
As plantas da minha casa não murcham, não se ressentem com a minha falta, não crescem nem florescem. Ficam para sempre paradas no tempo e recusam-se a morrer porque também não vivem.
Já pensei deitar tudo fora. As plantas e as flores artificiais já conheceram a escuridão do saco do lixo mas o arrependimento fez-me resgatá-las. Ficam na prateleira mais alta da sala, a ganhar pó. Até eu ter paciência de as limpar outra vez ou as deitar fora de uma vez por todas.

Crashei

04.07.20

Acabei o primeiro ano da faculdade com as cadeiras todas feitas e uma média de 15,7 valores.

Sinto-me mentalmente exausta, a necessitar de me desligar. Provavelmente repetirei o processo do ano passado: desativar o twitter e dedicar o meu tempo livre à leitura.

Não sei como atualizarei o blog com textos coerentes: o meu computador psicossomatizou o meu cansaço e não quer iniciar. Fiquei sem forma decente de escrever e vejo-me de telemóvel às escuras a mandar mensagens telegráficas para um espaço, sem revisão ortográfica.

Vou dando notícias por aqui, quando calhar. Estou cansada mas bem de saúde. Vamos andado com um pé à frente do outro, fazendo com que o dia de amanhã seja melhor que o dia de hoje.

Beijinhos 

Blog #842

30.06.20

Devia estar a escrever um trabalho de melhoria para entregar amanhã mas o nível de procrastinação está no máximo. Vou, pela milésima vez, fundar um blog.

Começar um blog é como abrir um caderno novo. Tem aquele cheirinho de papel guardado, cheio de promessas de grandes composições, agora é que é, vou ser disciplinada e escrever textos que realmente importam e que me vão deixar orgulhosa no futuro, vou atualizar o blog com frequência, vou ser pertinente, vou fazer a diferença, vou esquecer-me do blog?

Para quem tem no seu currículo uma infinidade de projetos começados e não terminados pode ser destruidor para a sua saúde mental desapaixonar-se de um projeto. Numa sociedade que atribui valor à capacidade produtiva do indivíduo, não é incomum perguntarmo-nos: quem sou eu se não as coisas que faço?

É importante perceber que somos mais do que um trabalho, do que um projeto, do que uma faculdade. E que conseguimos ultrapassar metas, sem desistir a meio daquilo que nos propusemos atingir: quantas vezes nos levantámos da cama quando não nos apetecia? Quantos familiares ajudámos quando estávamos preocupados com questões de trabalho? Quantos amigos reconfortámos quando nós mesmos estávamos um caos?

A empatia, a solidariedade e a interajuda são deveres positivos que, apesar de pertencerem ao domínio pró-social da moralidade e terem consequências mais indiretas, deveriam ser reforçados, encorajados e celebrados – e vistos como componentes importantes do que é ser alguém.

O meu avô costuma dizer que cada um dá o que tem. Não devemos penalizar aqueles que não têm mais para dar, e sim abraçar a neurodiversidade e valorizar as caraterísticas individuais de cada pessoa. Construimos uma melhor sociedade se soubermos trabalhar com as diferenças em vez de as colocar de lado.

Mesmo que me esqueça deste blog, não morre ninguém. Há que relativizar. Todos os dias milhões de pessoas criam blogs (e podcasts) e todos os dias milhões de pessoas deixam de produzir para blogs (e podcasts). Eu não sou este blog nem preciso dele para viver. Mesmo que desista de escrever aqui, o mundo continua a girar. E eu continuo a ter dias bons.